Histórias das ruas: A menina da Orla
Era uma hora da manhã e ali estava ela. Roupas curtas, pele queimada pelo sol, olhar sedutor, cabelos pretos e longos.
Sozinha, rindo à toa. O que ela estava buscando?
Aos 13 anos de idade, Lua* decide vender o seu corpo pelas ruas mais movimentadas da cidade. "Eu vou só dessa vez", ela pensou.
Afinal de contas, ela precisava muito comprar um celular. Ela queria privacidade ao usar suas redes sociais, e apenas um celular para a família inteira jamais poderia proporcionar isso.
Ela já não aguentava mais esperar. Aquela seria a noite em que ela conseguiria a tão sonhada liberdade.
Lua* parece ser uma menina muito esperta, dona de si. Mas será que ela já conhece todos os perigos que a noite nas ruas esconde?
Algumas amigas já lhe disseram que isso era dinheiro fácil!
Disseram que ela era muito bonita. Realmente, por onde ela passa, olhares profundos de desejo a acompanham.
Aquela era apenas uma das muitas noites que ela passaria na orla.
Onde estavam seus pais?
Onde estavam todos?
É difícil encontrar um rosto amigo nas ruas da grande cidade à noite.
Lua* aprendeu a usar o seu corpo como forma de satisfazer a outros, ela perdeu um pouco de si em cada trabalho.
Para silenciar as memórias e sensações ruins, ela começou a usar drogas. Tudo começou com alguns maços de maconha que a sua vizinha a ofereceu. Ela se sentiu em paz... pelo menos por um momento.
Depois, o feitiço da cocaína a enchia de coragem para aguentar os trabalhos noturnos. Ela ouviu falar que fumar pedra conseguia dar um efeito ainda mais forte e mais barato. Ela precisava disso, já que agora estava cada vez mais difícil suportar a vida.
Experimentou o crack pela primeira vez e nunca mais parou de pensar nele.
A bela Lua*, aos 20 anos, já não é mais tão bela assim.
A magreza, a boca escurecida e a falta de alguns dentes, a fazem, agora, ser ignorada pelas ruas.
Os olhares que a acompanham já não são os mesmos. Eles escondem algo diferente por trás de tudo.
"Será que eles conseguem enxergar a dor que carrego?", pensa consigo mesma a bela Lua*.
Em sua mente, só existem dois momentos: entorpecida pelas drogas ou sedenta por mais.
Já não existe meio termo.
Ela agora vende o seu corpo não para comprar o celular, mas para saciar a sua sede pelas drogas.
"Sempre tem um motivo, eu não faço porque gosto", afirma ela.
Quantas Luas* estão espalhadas pelas ruas da bela cidade ?
Quem sabe, se alguém a tivesse olhado diferente naquela primeira noite... Um olhar para além do julgamento. Um olhar de esperança em meio às sombras.
Ah, bela Lua*, você é preciosa demais para estar aqui nesta rua!
"Me espera, menina!
Olha pra mim, te trouxe o bem...
É boa nova!
Vem caminhar, ouvindo a canção, há esperança!" (Boa Nova - Marcos Almeida)
Por Rílari Salém Sartori Mesquita.
Ps: A história foi adaptada por mim, utilizei um nome fictício para preservar a identidade das diversas adolescentes que já compartilharam suas histórias comigo. Com elas está um pedaço do meu coração.
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